Zuzu Angel – História, Ditadura Militar, Moda, Filme


Zuleika Angel Jones. Popularmente conhecida como Zuzu Angel foi uma das mais influentes estilistas da história da moda no Brasil. Nascida em Curvelo, um pequeno município de Minas Gerais, quando criança se mudou com a família para Belo Horizonte onde deu início as suas primeiras costuras.

Em 1947 casou-se com Norman Angel Jones e com ele teve três filhos. Stuart Edgar Angel Jones, Hildegard e Ana Cristina. Seu divórcio aconteceu em 1960 e neste período dedicou-se ainda mais a carreira e aos filhos.

Em 1947 mudou-se novamente para a Bahia,onde passou boa parte da sua juventude. Depois foi para o Rio de Janeiro, onde se estabeleceu e começou a ganhar fama por não apenas costurar, mas criar sua moda com roupas próprias e se firmando como estilista.

Suas peças tinham características marcantes e regionais. A moda tropical das estampas de pássaros, borboletas e papagaios misturadas as rendas, sedas, fitas e chitas davam graça e autenticidade as suas peças.


O bambu, madeira e conchas também estavam presentes em suas peças. Para ela, as roupas precisavam vestir desde a mulher mais simples até a elite brasileira.

Vida de Zuzu Angel na moda

No final dos anos 1950 sua carreira deu uma grande guinada. Com o sucesso atingiu o mercado internacional em 1970. Abriu sua primeira loja em Ipanema. Com seu estilo regionalista fez tanto sucesso que  conquistou o mercado norte-americano sendo vitrine de grandes lojas de departamento local. As atrizes Kim Novak e Joan Crawford foram suas clientes na época.

Família de Zuzu Angel

Várias matérias foram publicadas no New York Times e Le Monde. Independente do sucesso seu jeito simples e agradecido as origens a faziam dizer que preferia ser citada no jornal de sua cidade natal Curvelo Notícias (CN) do que em qualquer outro do mundo.

Era uma profissional completa. Além de entender de todo o processo de corte e costura, sabia muito bem apresentar seu produto.

Por mais que tenha percorrido o mundo não deixou de lado suas origens. Sempre que passava muito tempo longe do Brasil dizia “Preciso sempre reabastecer minhas baterias de mineirismo. Quando sinto que vai acabando, tenho de voltar”.

A luta contra a ditadura

Em 1973 se encaminhou ao apartamento do General Ernesto Geisel no Leblon.  Lá entregou-lhe informações sobre a morte de seu filho e tentou conseguir auxílio.

Zuzu Angel, enquanto teve vida não desistiu de lutar contra a ditadura. Durante a visita do secretário norte-americano Henry Kissinger ao Brasil, furou a barreira de segurança e entregou-lhe um dossiê com provas das torturas sofridas por Stuart Angel. O fez porque embora tenha ocorrido no Brasil, Stuart também tinha nacionalidade americana.

A esposa do General Mark Clark, comandante das tropas aliadas no front italiano da Segunda Guerra Mundial, também recebeu das mãos de Zuzu Angel uma cópia do dossiê para que fosse direcionada ao marido.

Obra de Zuzu Angel

Após conseguir entregar informações do caso ao senador Edward Kennedy, este o transmitiu em um discurso nos Estados Unidos.

Quando tomou o microfone de bordo das mãos da aeromoça em um voo, Zuzu Angel informou aos passageiros prestes a descer no Aeroporto Internacional de Galeão no Rio de Janeiro que o país torturava e matava jovens estudantes.

Em busca de seu filho

Stuart Angel Jones, filho de Zuzu Angel, militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, estudante de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sofreu um sequestro político. Foi preso e levado a base aérea do Galeão por agentes da CISA – Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica – em 14 de Junho de 1971.

Zuzu deu início a buscas por seu filho em prisões e quartéis. Apesar de receber notícias de que na mesma noite Stuart havia sido brutalmente torturado e morto sua rotina agora se baseava em encontrar o corpo do seu filho para dar-lhe ao menos um enterro.

Em 15 de Setembro do mesmo ano Zuzu Angel foi tema nas manchetes internacionais e no jornal canadense The Montreal Star com o dizer “Designer de moda pede pelo filho desaparecido”. Após 5 dias o jornal Chicago Tribune escreveu: “A mensagem política de Zuzu está nas suas roupas”.

Também recorreu a influentes políticos e celebridades a fim de que conseguisse encontrar o corpo do seu filho. Infelizmente, mesmo com toda fama e influência não obteve êxito em sua busca.

Protestos de Zuzu Angel

Zuzu aproveitou todo o sucesso gerado com sua moda e a utilizou para protestar contra a ditadura da época.

Realizou uma coleção onde afirmava ser “a primeira coleção de moda política do Brasil”. Modificou a forma de ver das imagens. Dessa forma ao lado de anjos haviam crucifixos, tanques de guerra, pássaros engaiolados, jipes, sol atrás de grades.

Em 1971 fez um desfile-protesto no consulado brasileiro de Nova York. Nesta época, o Ato Constitucional AI-5 ainda prevalecia. Nele  estabelecia que não podia falar mal do país no exterior.  Sendo assim, Zuzu Angel fez um desfile comovente. As peças vinham com fitas pretas de luxo nas mangas, golas, palas e cintura dos vestidos.

Ao lado dos bordados agora haviam andorinhas pretas, sol quadrados, canhões atirando e soldados recebendo ordens tirânicas.

Roupas mais icônicas

Zuzu Angel marcou sua carreira por criar roupas originalíssimas e de qualidade.

Zuzu Angel Vestidos

Os elementos brasileiros estavam presentes em suas peças enfatizando as cores, rendas vindas do Ceará, chitas, estampas tropicais e formas nas suas coleções.

Por ser bastante habilidosa se inspirou em Carmem Miranda, Maria Bonita, Lampião, anjos sobrevoando nuvens, xadrez e pássaros florais para criar novos modelos. Inicialmente foi tachada  como brega, mas rapidamente caiu no gosto popular e se estabeleceu como uma excelente profissional.

Morte de Zuzu Angel

Em 14 de Abril de 1976, segundo a ditadura, provocada por um acidente automobilístico, Zuzu Angel faleceu. O acidente ocorreu na saída do Túnel Dois Irmãos que após o acidente recebeu o nome da estilista.

Na época foi divulgado pelo governo que a causa da morte foi que Zuzu Angel havia dormido ao volante. Esta afirmação no entanto foi contestada e anos depois reconhecido que sua morte aconteceu através de um atentado. Hoje ainda nada foi realmente esclarecido.

Zuzu Angel se antecipou ao que pudesse ocorrer com sua vida. Desta forma, uma semana antes do acidente entregou a Chico Buarque um documento a ser divulgado caso algo lhe acontecesse. Nele estava escrito “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.

As palavras do documento inspiraram o cantor juntamento com Militando do MPB 4 a comporem a música intitulada “Angélica”.

Filme

Em 2006, Sergio Resende produziu o filme Zuzu Angel. Os atores  Patrícia Pilar, Daniel de Oliveira, Camilo Bevilacqua, Luana Piovani e Leandra Leal davam vida aos personagens vividos na época.

Sua sinopse conta a história da estilista Zuzu Angel. Após ter seu filho sequestrado e torturado pela ditadura militar tenta de todas as formas encontrar seu corpo. Sem êxito, após alguns anos acaba sofrendo um acidente automobilístico que até hoje não foi bem explicado.